A vida começa tudo de novo quando fica nítido no outono.”
F.Scott Fitzgerald

Você já parou para pensar como somos afetados e influenciados pela natureza? Quando a natureza sofre uma mudança, como por exemplo as estações do ano, também reflete em nós, no nosso corpo e na nossa mente?

Já percebeu quais mudanças ocorrem no seu corpo, nas suas emoções, nas suas atitudes e comportamentos? É importante conhecer e observar o seu corpo e conseguir identificar as mudanças que ele sofre com as mudanças da natureza e adaptar o seu estilo de vida de acordo com elas.

A Medicina Tradicional Chinesa e o Ayurveda afirmam que devemos nos conectar e seguir o fluxo da natureza para termos uma vida longa e saudável.

O outono é a estação em que o vento derruba as folhas e elas caem, deixando ir o velho para abrir espaço para o novo chegar e armazenar energia para o inverno.

É um momento favorável para focarmos em mudanças internas, esvaziar a mente e deixar ir. Deixar ir emoções e sentimentos antigos, deixar ir hábitos e comportamentos ruins para dar espaço para coisas novas fluírem.

A Medicina Tradicional Chinesa identifica a relação do outono com o elemento Metal e o Ayurveda identifica o fortalecimento do Agni (fogo digestivo) nesta estação.

 

O Metal

Após a agitação, expansão, calor e luminosidade que marcam o ápice da energia Yang no verão, o equinócio de outono começa a trazer o recolhimento, a introspecção, o repouso e o frio da energia Yin.

No início da estação, o dia e a noite possuem a mesma duração, mas no decorrer do outono as noites ficam mais longas, os dias mais curtos e a temperatura também tende a cair. O vento frio e a secura também são características do outono.

A época é de “colher os frutos” que foram plantados na primavera e no verão, de deixar cair as folhas para preparar o solo que começa a a conservar e acumular energia para a chegada do inverno.

A Medicina Tradicional Chinesa sugere maior atenção na harmonia do elemento Metal para manter o bem-estar da saúde física, emocional e espiritual durante o outono.

“Os três meses do outono são a época da colheita. Torna-se cada vez mais frio com os ventos soprando mais forte. O qi da terra é límpido e tudo muda de cor.
Deite-se cedo, assim que escurecer, para se levantar de madrugada como o galo.
Esta é a forma de se adaptar ao outono e nortear o qi da época da colheita. Violá-lo iria resultar em prejuízo aos pulmões, levando à indigestão à diarréia no inverno, bem como enfraquecimento da capacidade de armazenamento da estação.

Fique calmo e relaxado e conserve sua energia vital em equilíbrio correto. Isso irá ajudá-lo a resistir à influência adversa do ar frio do outono.”
(Neijing Su Wen, ou Clássico de Medicina Interna do Imperador Amarelo)

O Metal é associado ao pulmão e ao intestino grosso, se expressa na pele, pelos e nariz. Ressoa com o lamento, melancolia, apatia, otimismo, vitalidade, sensibilidade e carisma. Se relaciona com a cor branca, com o sabor picante, com o odor pútrido, com o soluço, com o sentido do olfato, com o horário das 3h às 7h e com o clima seco.

Os pulmões são responsáveis pela entrada do novo no nosso organismo por meio da respiração. Por isso, deve-se ter atenção e cuidado com o que inspiramos e colocamos em nosso corpo, uma vez que dentro do nosso organismo, se torna uma parte de nós. É ele que leva a energia qi do mundo externo para o nosso mundo interno.

É um dos órgãos que possui mais relação com o meio externo, já que existe uma troca com o ambiente ao inspirar e expirar.  Também estão associados à comunicação e aos pensamentos claros, à autoconfiança, novas ideias, à habilidade de relaxar.

“Os pulmões são os órgãos com função de primeiro-ministro. Aqueles que são contra o princípio de conservar a boa saúde no outono não serão capazes de captar um yin qi maior. Isso iria resultar em calor nos pulmões, manifestado por respiração ofegante e congestão pulmonar.”
(Neijing Su Wen, ou Clássico de Medicina Interna do Imperador Amarelo)

Já o intestino grosso possui a função de liberar, eliminar o que o organismo não utilizou e não absorveu. Excreta tudo aquilo que não precisamos, deixando apenas o necessário para o bom funcionamento do corpo e da mente.

O Metal e sua nutrição

O elemento Metal está relacionado à colheita, à transformação e ao deixar ir. Traz a reflexão das nossas escolhas, comportamentos e ações, já que é na estação do outono que fazemos a colheita do que realizamos nas estações passadas e nos tornamos introspectivos para compreendermos o que podemos manter nas nossas vidas e o que podemos desapegar e finalizar, seja no âmbito material, emocional e espiritual.

Para manter o Metal em equilíbrio, é necessário tonificar a energia dos pulmões e intestino grosso, ter hábitos saudáveis, evitar excessos alimentares e adaptar o estilo de vida de acordo com as estações do ano.

Coma alimentos picantes, como cebola, alho, gengibre, e alimentos mornos, medite para se conhecer e compreender melhor o seu universo interno, respire profundamente e realize exercícios de respiração durante o dia.

Faça uma caminhada ou passeie ao ar livre e respire o ar puro da estação, atente-se, apenas, para não se expor ao vento frio e seco. Sempre se agasalhe, se aqueça, principalmente a região do pescoço; use cachecol e não deixe esta área exposta ao vento.

Organize planos, metas e elimine tudo aquilo que não faz mais sentido para você. Arrume o armário e doe aquelas roupas que não usa mais, pratique o desapego, de coisas materiais e de sentimentos, emoções e pessoas que não te fazem bem.

Solte sentimentos estagnados e aprenda que é importante lidar com a dor e com a tristeza, mas também é necessário saber deixá-las fluir. Se estiver triste converse e conte para seus amigos, desabafe com alguém que confia, não deixe sentimentos e emoções presos, libere-os.

Estas são algumas práticas que ajudam a manter o Metal em equilíbrio e, consequentemente, o bom funcionamento do corpo,  evitando a manifestação de alergias, asma, resfriados, gripe, prisão de ventre, diarreia, tosse, respiração ofegante, problemas de pele, dor e tristeza profunda, que é o que acontece quando o elemento Metal não está balanceado.

O espírito do Metal (Po)

O Po é a Alma corpórea. Reside nos pulmões e representa o aspecto físico da alma, a parte da alma que está conectada ao corpo, por isso possui uma forte conexão com o mundo físico. O Po possui origem na mãe, é formado na concepção e fica no corpo até a morte, quando é silenciado. Junto com o jing,  participa do desenvolvimento físico da gestação. A respiração é considerada a manifestação do Po.

“A alma corpórea se aloja nos pulmões e será ferida por excesso de alegria e regozijo. Se a alma corpórea for ferida, a pessoa tende a perder o autocontrole e ficar louca.”
(Neijing Su Wen, ou Clássico de Medicina Interna do Imperador Amarelo)

O Po é responsável por toda a consciência corpórea do corpo como os olhos, as orelhas, o nariz e a boca, pelos movimentos físicos, coordenação, equilíbrio e pelas funções regulatórias como respiração, frequência cardíaca, pressão arterial, transpiração e digestão.

Como o Po é a alma corpórea, possui uma forte conexão com os sentidos, pois é por meio deles que ligamos e relacionamos o corpo ao mundo externo.

É afetado por todas as emoções, em especial pela dor e tristeza. Elas se manifestam devido a dificuldade do indivíduo em lidar com os sentimentos de perda e desapego, estagnando-os e os transformam em dor e tristeza reprimidas.

Fatores que enfraquecem o Metal
Sentimentos de mágoa e tristeza

– Apego
Alimentos gelados e frios
Saladas e comidas cruas
– Leite e derivados
– Alimentos defumados

Alimentos que nutrem o Metal
– Alimentos picantes

– Alho
– Batata-doce
– Gengibre
– Cebola
– Pera
– Repolho
– Nozes
– Pimenta preta
– Rabanete
– Arroz
– Pimenta
– Canela
– Cardamomo
– Alho-poró
– Missô
– Amêndoas
– Aspargos
– Brócolis
– Pepino
– Salsão
– Mostarda verde
– Damasco
– Ameixas
– Banana
– Ovos
– Azeitonas
– Picles
– Maçã
– Picles
– Limão

Receita para tonificar o pulmão
– 6 cebolas

– 2 colheres de sopa de azeite
– 1/2 colher de chá de óleo de gergelim torrado
– 1 colher de chá de tomilho seco
– 2 folhas de louro
– 1/2 colher de chá de alecrim seco
– 2 colheres de sopa de tamari
– 4 ou 5 xícaras de água
– 2 colheres de sopa de missô escuro
Modo de preparo
Corte a cebola em tiras finas. Aqueça o azeite em fogo baixo e acrescente a cebola e todas as ervas, mexendo de vez em quando. Cozinhe lentamente por 30-40 minutos sem queimar as cebolas para a doçura sair. Adicione a água e o tamari, leve para ferver e cozinhe por cerca de cinco minutos. Coloque um pouco desse caldo em uma xícara para diluir o missô e coloque de volta na panela. Desligue o fogo e mexa por alguns minutos. Sirva com pão ou croutons.

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Outono e Ayurveda

 De acordo com Ayurveda, no 3º capítulo do Ashtanga Hrdayam, nomeado Rtucharya, existem seis estações durante o ano (cada uma dura aproximadamente 2 meses) e são divididas em dois momentos ou solstícios: Adana Kala ou Uttarayana e Visarka Kala ou Dakshinayana.

O Adana Kala é composto pelas seguintes estações:
– Shishira Rtu – Final do Inverno
– Vasanta Rtu – Primavera
– Greeshma Rtu – Verão

Para Vagbhata, “o movimento do Sol para a direção norte é chamado Uttarayana. Uttarayana reduz as qualidades suaves da Terra e leva embora a força dos seres humanos, consequentemente esgota sua força e energia.”  O Sol e o calor são predominantes nestas estações.

Já o Visarka Kala ou Dakshinayana é formado por:
– Varsha Rtu – Estação das chuvas
– Sharad Rtu – Outono
– Hemanta Rtu – Inverno

 O Sol se movimenta para o sul, a força e a energia dos seres humanos aumentam. Devido às chuvas o calor da Terra fica mais ameno. Nestas estações, a Lua e o frio são predominantes. Como o outono (Sharad Rtu) é uma estação do Visarka Kala possui como características a predominância do frio e da Lua, de ventos frios e clima seco. As pessoas estão mais dispostas e com o vigor moderado, uma vez que o Agni, o fogo digestivo, está mais forte do que nas estações anteriores, verão e monções ou estação das chuvas.

De acordo com Sushruta Samhita, “no outono, os raios solares são castanhos e quentes, o céu tem nuvens brancas e está claro; os lagos e lagoas estão cheios de flores de lótus e manadas de cisnes; o solo secou a lama, há árvores secas, elevações e depressões”.

O Outono

 No outono o dosha Pitta está acumulado devido a estação das monções (chuvas pós verão). O dosha Vata está diminuindo e o dosha Pitta está atingindo o seu pico; deve-se, então, adotar alimentação e hábitos que equilibrem Pitta e impeçam que ele se agrave.

“A pessoa se acostuma com o frio da estação das chuvas.  Quando ela repentinamente fica exposto aos raios quentes do Sol, o Pitta, que sofreu aumento em Varsha (estação das chuvas), torna-se muito agravado durante o Sharath (outono).  Para superar isso, Tikta ghrita (receita de ghee medicamentoso), terapia de purgação e derramamento de sangue devem ser utilizados.  Quando estiver com fome, a pessoa deve ingerir alimentos de sabores amargos, doces e adstringentes, de fácil digestão, como arroz, verduras, açúcar, amla, patola, mel e carne de animais de terras desérticas.”
(Ashtanga Hrdayam: Ritucharya)

Consumir alimentos de fácil digestão com sabores doce, amargo e adstringente, comer quando tiver fome, comer carne de animais do deserto, evitar dormir durante o dia e evitar carne de peixe e de outros animais aquáticos, evitar alimentos ácidos/azedos e com muito sal,  fazer terapias como sangria a purgação, não se expor à luz do Sol e ao vento frio, são alguns dos hábitos que devem ser seguidos para obter uma vida saudável nesta estação e, consequentemente, no restante do ano.

Sabores predominantes em Visarga Kala – Dakshinayana

Azedo, salgado e doce. Esses sabores são os predominantes encontrados na água, nos alimentos e medicamentos nesse período. Estes três sabores aumentam a força dos seres humanos e aumentam a água no corpo, mantendo-os hidratados. No outono, como há agravamento do dosha Pitta, deve-se predominar o sabor doce, já que é o sabor antagônico deste dosha. Sugere-se evitar alimentos e medicamentos com o sabor salgado e azedo, pois tendem a agravar Pitta.

Regime indicado para o Outono

Terapias como:
– Virechana: terapia de purgação

– Snehapana: consumo de gorduras medicinais com ghee amargo.
– Sangria
Hábitos:
– Esfregar pasta de sândalo e cânfora no corpo, usar guirlandas de pérolas e um vestido brilhante ao luar.

– Usar guirlandas de flores do outonais e um pano limpo sob os raios da lua.
Hamsodaka: tomar água purificada pelos raios do Sol durante o dia e pela Lua à noite.  

“ A água que é aquecida pelos raios quentes do Sol durante o dia e resfriada pelos raios frios da Lua durante a noite, por muitos dias continuamente, que foi desintoxicada pelo surgimento da estrela Agastya, que é pura, não contaminada e capaz de mitigar os malas é conhecida como Hamsodaka. Não é nem abhisyandi (produzindo mais secreção ou umidade dentro dos canais diminutos para bloqueá-los) nem seca, tal água é como Amrita (néctar) para beber e outros fins.”
(Ashtanga Hrdayam: Ritucharya)

Outras recomendações
– Evitar dormir ou tirar cochilos durante o dia

– Evitar alimentos ácidos
– Evitar exposição à névoa
– Tomar cuidado com o excesso de exposição ao Sol
– Evitar e se proteger do vento
– Utilizar sempre roupas limpas
– Aproveitar a brisa fria à noite, mesmo no krshna paksha, na lua minguante
– Não comer em excesso

Alimentos indicados
Alimentos com sabores amargo, doce e adstringente

Tikta ghrita: receita de ghee medicamentoso com ervas amargas
– Alimentos de fácil digestão
– Alimentos frios
– Arroz
– Mel
– Açúcar
Amla
– Abóbora

– Caso consuma carne, optar por carnes de animais do deserto, ambientes áridos
– Cevada
– Trigo
– Abacate
– Beterraba
– Batata-doce
– Nozes
– Manga
– Verduras
– Gengibre
– Cominho
– Alecrim
– Açafrão
– Canela
– Manjericão

Alimentos a serem evitados
– Alimentos de sabores salgado e ácido

– Carnes de peixes e outros animais aquáticos
– Carne de animais pantanosos
Kshara: substâncias alcalinas
– Alimentos pesados, de dificil digestão
– Coalhada azeda
– Gordura de músculo
– Óleo de mostarda
– Bebidas alcoólicas

Receitas
Sopa de batata e alho-poró
6 batatas médias, descascadas ou com casca, em cubos

– 1 colher de chá de ghee ou azeite
– 2-3 xícaras de alho-poró picado
– ½ colher de chá de pimenta preta
– 1 colher de chá de tamari
– 1 colher de sopa de estragão
– 2 colheres de chá de tomilho
– 1 colher de chá de sal
– 5 xícaras de caldo de vegetais
– noz-moscada
– 2 colheres de sopa de salsa fresca picada
Modo de preparo: refogue o alho-poró no azeite, adicione a pimenta, as batatas e refogue. Adicione o caldo, o sal e as ervas. Deixe cozinhar em fogo médio. Finalize com noz-moscada e o tamari.

Maçã ou peras assadas
– 3 maçãs ou peras

– ½ colher de chá de gengibre picado
– ½ colher de chá de cardamomo
– 2 raminhos de alecrim
– ghee a gosto
Modo de preparo: pré-aqueça o forno a 190 graus. Lave as frutas, corte-as ao meio e remova o miolo. Espalhe-as sobre o papel manteiga com a polpa voltada para cima. Use ghee derretido e regue as frutas ou pincele cada uma delas. Polvilhe alecrim fresco, cardamomo e gengibre por cima. Leve ao forno por cerca de 30 minutos. Adicione outras especiarias, como cravo, canela ou baunilha.

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